terça-feira, 2 de julho de 2013

Umbanda

Em Novembro de 1908, uma família tradicional de Niterói-RJ, foi surpreendida por uma ocorrência que tomou aspectos sobrenaturais: Zélio Fernandino de Moraes, um jovem que fora acometido de estranha paralisia, ergueu-se do leito e declarou: "Amanhã estarei curado."

No dia seguinte, levantou-se normalmente e começou a andar, como se nada tivesse lhe tirado os movimentos e a medicina não soube explicar o que havia acontecido. Os tios, sacerdotes e católicos surpreendidos, nada esclareceram, então, um amigo da família sugeriu que fizessem uma visita a Federação Espírita de Niterói, presidida na época por José de Souza.

No dia 15 de Novembro, o jovem Zélio foi convidado a participar da sessão, tomando um lugar a mesa. Dominado por uma força estranha, superior a sua vontade e contrariando as normas que impediam o afastamento de qualquer um dos componentes da mesa, Zélio se levantou dizendo "Aqui quem esta faltando uma flor" e saiu da sala indo ao jardim, voltando com uma flor, que depositou no centro da mesa.

Sua atitude causou um breve tumulto e quando os trabalhos foram reestabelecidos, manifestaram-se nos médiuns kardecistas espíritos que se diziam pretos escravos e índios, que foram convidados a se retirarem advertidos de seu atraso espiritual.

Novamente uma força estranha dominou Zélio e ele falou, sem saber o que dizia. Apenas ouvia a sua própria voz perguntar o motivo que levava os dirigentes dos trabalhos a não aceitarem a comunicação daqueles espíritos e do por que serem considerados atrasados, apenas por encarnações passadas que revelavam.

Um médium vidente perguntou:

"Por que o irmão fala nesses termos, pretendendo que a direção aceite a manifestação de espíritos que, pelo grau de cultura que tiveram quando encarnados, são claramente atrasados? Por que fala deste modo se estou vendo que me dirijo neste momento a um jesuíta e que sua veste branca reflete uma aura de luz? Qual o seu nome, irmão?"

E o espírito desencarnado falou:

"Se julgam atrasados os espíritos de pretos e índios, devo dizer que amanhã estarei na casa do meu aparelho para dar início a um culto em que esses irmãos poderão dar as suas mensagens e, assim, cumprir a missão que o plano espiritual lhes confiou. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, emcarmados e desencarnados. E se querem saber o meu nome, que seja esse: Caboclo das Sete Encruzilhadas, porque para mim não haverá caminhos fechados."

O médium perguntou com ironia ao Caboclo:

"Julga o irmão que alguém irá assistir ao culto?"

E o espírito, já identificado, disse:

"Cada colina de Niterói atuará como porta voz, anunciando o culto que amanhã iniciarei."

No dia seguinte, na casa da família Moraes, os membros da Federação Espírita se reuniram para comprovarem a veracidade do que havia sido declarado na véspera. Estavam os parentes mais próximos, amigos, vizinhos e do lado de fora, uma multidão de desconhecidos.

Por volta das 20h, manifestou-se o Caboclo das Sete Encruzilhadas. Declarou que, naquele momento, se iniciava um novo culto em que os velhos africanos, que haviam sido escravos, e os índios nativos de nossa terra, poderiam trabalhar em benefício de seus irmãos encarnados, qualquer que fosse a cor, a raça, o credo e a condição social. A prática da caridade, no sentido do amor fraterno, seria a característica principal deste Culto, que teria por base o Evangelho de Jesus.

O Caboclo estabeleceu as normas em que se processariam o culto, onde, os participantes estariam uniformizados de branco e o atendimento seria gratuito. Deu, também, o nome ao movimento religioso que se iniciava de Umbanda - Manifestação do espírito para a caridade.

A Casa de trabalhos espirituais que ora se fundava, recebeu o nome de Nossa Senhora da Piedade, porque assim como Maria acolheu o filho Jesus nos braços, também seriam acolhidos como filhos todos os que necessitassem de ajuda ou conforto. A partir daí, o Caboclo das Sete Encruzilhadas começou a trabalhar incessantemente para o esclarecimento, difusão e sedimentação da religião.


Em 1971, a Sra. Lila Ribeiro - Presidenta da Tenda de Umbanda Luz, Esperança e Fraternidade - gravou uma mensagem do Caboclo Sete Encruzilhadas:

"A Umbanda tem progredido e vai progredir.

É preciso haver sinceridade, honestidade e eu previno sempre, aos companheiros de muitos anos, que a vil moeda vai prejudicar a Umbanda. Os médiuns que irão se vender, mais tardes serão expulsos.

Umbanda é caridade, amor e humildade - esta é a nossa bandeira. Sejam humildes, tenham amor no coração, amor de irmão para irmão, porque vossas mediunidades ficarão mais puras, servindo aos espíritos superiores que venham a baixar entre vós. É preciso que os aparelhos estejam sempre limpos, os instrumentos afinados com as virtudes que Jesus pregou aqui na Terra, para que tenham boas comunicações e proteção para aqueles que vem em busca de socorro nas Casas de Umbanda.

[...] Com um voto de paz, saúde e felicidade. Com humildade, amor e caridade, sou e sempre serei o humilde Caboclo Sete Encruzilhadas."

Desde que se iniciou, rapidamente se enquadrou dentro do contexto nacional brasileiro e se propagou, gerando um interesse mundial, sendo alvo de estudos e até de teses de pós graduação em psicologia, onde tentam por vários meios explicar o fenômeno, que facilmente se conclui pertencer a outras esferas de atividades da vida.

Tem suas raízes nas religiões indígenas, africanas e cristã, mas incorporou conhecimentos religiosos universais pertencentes a muitas outras religiões. É o sinônimo de prática religiosa e magística caritativa e não tem a cobrança como uma de suas práticas usuais. 

A Umbanda prega a existência de um Deus único e tem nessa sua crença o seu maior fundamento religioso, ao qual não dispensa em nenhum momento nos seus cultos religiosos e, mesmo que reverencie as Divindades, os espíritos da natureza e os espíritos ascensionados (os guias-chefes), não os dissocia do nosso Pai Maior. 

Para nós, as divindades de Deus (os Orixás) são seres Divinos dotados de faculdades e poderes superiores aos dos espíritos e tem nelas um dos seus fundamentos religiosos, recomendando o culto a elas e a prática de oferendas como uma das formas de reverenciá-las, já que são indissociáveis da natureza terrestre ou Divina de tudo o que Deus criou. Porém, não recorre aos sacrifícios de animais para assentamento de Orixás e não tem nessa prática um dos seus recursos ofertatórios às Divindades. As oferendas se caracterizam por flores, frutos, alimentos e velas.

É uma religião voltada somente para o bem, onde as sessões devem ser gratuitas não podendo atender a interesses particulares.Tem como lugar religioso o templo, centro, tenda ou terreiro, o local no qual os umbandistas se encontram em sessões, giras ou cultos para promover atendimentos espirituais por meio da incorporação dos seus guias e entidades.

O chefe é a mãe de santo, no caso do Templo Magia de Luz, mais correntemente chamada de sacerdote umbandista ou dirigente espiritual. São os médiuns mais experientes e com maior conhecimento, normalmente fundadores do Templo, quem coordenam as giras e que irão incorporar o guia-chefe, que comandará a espiritualidade e a materialidade durante os trabalhos.

Como uma religião espiritualista, a ligação entre os encarnados e os desencarnados se faz por meio dos médiuns e a mediunidade de incorporação é um de seus pilares, servindo para o desenvolvimento dos médiuns e aconselhamento dos consulentes, pessoas comuns que buscam orientação espiritual para suas vidas. 

Existem várias classes de médiuns de acordo com os vários tipo de mediunidade. Normalmente há os médiuns de incorporação, que são os responsáveis por sintonizar-se com as entidades, que irão realizar os trabalhos de atendimento; os ogãs que transmitem a vibração da espiritualidade superior por via do som dos atabaques e dos pontos cantados, sendo responsáveis pela harmonia da gira, e os cambonos que são encarregados de atender às entidades, provisionando todo o material necessário para a realização dos trabalhos.

Embora caiba ao dirigente espiritual o comando vibratório do rito, grande importância é dada à cooperação e ao trabalho coletivo de toda a corrente mediúnica.

Nenhum comentário:

Postar um comentário